Um mártir para os jornalistas (resenha do documentário Vlado: 30 anos depois)

A revolução de 1964 é papo de militar, provavelmente que tenha vergonha de dizer em voz alta golpe de 1964, um ato anticonstitucional que mergulhou o país em um período de total violação dos direitos humanos. De censura e repressão cultural, ideológica, profissional e econômica. Um período que durou por mais de 20 anos, mais especificamente até o ano de 1986.

Inicialmente a repressão era de caráter mais político, ideológico. A perseguição não causava exacerbadas intervenções físicas e esta integridade era relativamente preservada. Foi no ano de 1968 que as coisas começaram a mudar. O primeiro estudante foi morto, a passeata dos 100 mil aconteceu, Chico Buarque lançou a peça teatral Roda Viva e a paciência dos militares foi se embora, assim como o pouco controle exercido pelo presidente Costa e Silva. Tudo isso, brilhantemente retratado no livro de Zuenir Ventura (1968: O ano que não terminou), melhor até que em muitos livros de história. Daí para frente nos anos seguintes os desaparecimentos eram freqüentes. Tortura e morte eram palavras de ordem. Afinal, os subversivos precisavam ser contidos e a decência no Brasil, preservada. Seria ironia ou cinismo dos militares manter a ordem com tamanha violência?

É preciso ser dito novamente, que muitas vidas foram tiradas neste período. Muitos anônimos e outros nem tanto. Muitas mortes chocaram somente os familiares, outras causaram repercussão. Uma delas comoveu e comove até hoje o diretor João Batista de Andrade. O assassinato do jornalista Vladmir Herzog em uma cela de prisão no dia 25 de Outubro de 1975. Seu amigo.

Trinta anos depois, João Batista lançou o documentário autoral “Vlado, 30 anos depois”, um filme nostálgico, com cara de filme amador, feito com câmera de mão (e na mão) e uma intensa vontade de prestar uma homenagem. Extremamente visceral, o filme mostra um mosaico de depoimentos de amigos e pessoas próximas a Vlado, que se lembram do jornalista com uma doce saudade, sem sofrimento, mas, com agradável sensação.

Vindo da Iugoslávia pós-segunda guerra mundial, Herzog chegou ao Brasil ainda criança. Além da sua formação jornalística, o iugoslavo era apaixonado por cinema, sendo responsável pelo primeiro documentário do país. Morou e estudou por um ano em Londres retornando ao Brasil em 1968. Ano violento, como já dito. Ano do AI5.

Vladmir Herzog foi editor cultural da revista Visão, na qual praticou a observação crítica, seguindo posteriormente, no ano de 1972, para o jornal Hora da Notícia, na TV Cultura. Diferente dos jornais contemporâneos daquele período, o compromisso assumido era reacionário e não demorou a incomodar. Àquilo era muito diferente do convencional e a TV Cultura se tornou sinônimo de subversão na era Geisel.

A sutileza já não era praticada há alguns anos pelos militares. Sendo assim, o governo vigente era totalmente indiferente ao assassinato de um anônimo, um artista ou jornalista. Não havia a preocupação com formação de mártires, na verdade, a captura de um jornalista era um ato patriótico, uma prevenção à sociedade contra os maléficos comunistas e tortura era o único remédio – quando ainda tinha remédio.

O filme dedicado a Vlado não conta apenas a sua história. Não é só um documentário sobre ele, o filme é relato da perseguição e sofrimento de todos os jornalistas que viveram este período de terror. Vlado é um símbolo, que representa todos os jornalistas perseguidos.

Como mostra o filme, o momento do testemunho sobre as perseguições, torturas e mortes foram os mais intensos e dramáticos, mas são apenas relatos. A dor e a destruição da dignidade não podem ser transmitidas apenas pelas palavras. Talvez seja possível vislumbrar uma vaga idéia, mas não mais que isso. No Brasil, nenhum militar jamais foi julgado por crimes cometidos contra os direitos fundamentais. Não se sabe o paradeiro de inúmeros envolvidos e uma serie de documentos sigilosos ainda o são e não serão revelados por décadas.

Vladmir era um idealista. Homem amável, segundo sua esposa Clarice, sensível para os amigos. Era um entusiasta da liberdade e nunca precisou se esconder. Nunca viveu clandestinamente. Negociou a chance de se entregar e assim o fez. Foi torturado. Foi morto. Tentaram forjar seu suicídio. Seu idealismo o matou, pois, não foi capaz de assinar uma confissão entregando seus companheiros.

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Viagem a Lua (Le voyage dans la lune)

Estou postando esta obra de Georges Méliès, que é um marco do cinema mundial. Le Voyage dans la Lune de 1902. Se é possível ver até dinossauros e alienígenas no cinema, Méliès tem uma grande parcela de culpa, pois é considerado o pioneiro nos efeitos especiais.

Este definitivamente não é um post original, mas é um modo de apresentar aos fãs da sétima arte um filme que na verdade faz parte da história do cinema. Vale muito a pena conferir:

 

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